O número de atendimentos relacionados à ludopatia — condição caracterizada pelo impulso persistente e difícil de controlar de jogar e apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares — aumentou mais de 5 vezes na Bahia entre 2021 e 2024. Os dados correspondem aos atendimentos presenciais realizados na rede pública de saúde para tratar problemas relacionados a jogos e apostas.
As consultas foram realizadas no Sistema Único de Saúde (SUS), tanto na atenção primária quanto na especializada. Segundo levantamento obtido pelo Bahia Notícias junto ao Ministério da Saúde, o número de atendimentos passou de 688, em 2021, para 3.750, em 2024.
A pasta informou à reportagem que os registros são feitos principalmente com base nas classificações F63.0, referente ao jogo patológico, e Z72.6, relacionada à mania de jogos e apostas. Em 2022, foram contabilizados 1.225 atendimentos. No ano seguinte, o número chegou a 2.331, antes de alcançar 3.750 em 2024.
O ministério ressaltou que os dados correspondem ao número de atendimentos, e não à quantidade de pessoas atendidas, uma vez que um mesmo paciente pode realizar mais de uma consulta. A pasta também explicou que o SUS oferece assistência em saúde mental às pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas, bem como a seus familiares, por meio de atendimentos presenciais e on-line.
ALERTA PARA SAÚDE MENTAL E FINANCEIRA
Em entrevista ao Bahia Notícias, a psicóloga clínica Amanda Guene afirmou que a facilidade de acesso às plataformas de apostas é um dos principais fatores por trás do crescimento expressivo dos atendimentos relacionados à ludopatia.
“Um facilitador para isso é justamente o acesso a essas plataformas. Eu até amplio essa questão para o empréstimo consignado, por exemplo, porque são coisas às quais as pessoas têm muito mais facilidade de acesso”, explicou a psicóloga.
Segundo ela, as campanhas publicitárias também agravam o problema ao apresentar as apostas como uma possível solução para dificuldades financeiras.
A propaganda que se faz a respeito dessas plataformas, de que é algo positivo, associado à possibilidade de quitar dívidas e conseguir dinheiro fácil, faz realmente com que as pessoas se interessem por isso e procurem essas plataformas para tentar conseguir dinheiro”, afirmou.
Para a especialista, a expectativa de ganhos dá lugar, muitas vezes, a um ciclo de prejuízos financeiros e sofrimento emocional. O hábito de apostar, utilizado em alguns casos como uma tentativa de escapar dos problemas cotidianos, pode acabar aprofundando o sofrimento psicológico.
“Tem gente que joga em busca de excitação, de ter emoções prazerosas. Tem gente que joga pela fuga dos problemas mesmo, buscando uma distração, buscando esse alívio. No entanto, é um alívio que não se sustenta, é momentâneo”, destacou.
A psicóloga ressaltou que a prática pode se transformar em um ciclo vicioso, no qual as perdas financeiras aumentam as preocupações e a ansiedade.
“Acaba gerando mais preocupação e mais ansiedade em torno do problema, porque a plataforma do jogo tomou o dinheiro, em vez de devolver”, acrescentou.De acordo com Amanda, o sofrimento e a repetição do comportamento também precisam ser considerados durante o acompanhamento psicológico.
“Esse comportamento diz algo, exerce uma função na vida do paciente. A gente precisa trabalhar com o paciente para identificar esse comportamento e conseguir traduzir: qual é a função que esse comportamento está exercendo na vida da pessoa? Quais são os prejuízos e como mudá-lo?”, avaliou.
Diante dos impactos sociais e financeiros das apostas, a psicóloga defendeu medidas de restrição às plataformas e iniciativas de educação financeira.
“Eu acho que a eliminação das bets seria uma forma de minimizar e eliminar esse problema, porque as pessoas têm usado sem conscientização mesmo. E, atrelada a isso, é necessária uma educação financeira”, defendeu.COMO PROCURAR ATENDIMENTO
A oferta de teleatendimentos voltados a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, iniciada em março deste ano, já ultrapassou a marca de 100 mil atendimentos mensais, segundo as informações divulgadas pelo Ministério da Saúde.
Para acessar o serviço, o usuário deve entrar no aplicativo Meu SUS Digital e agendar uma consulta com um especialista. Os atendimentos são realizados por videochamada, de forma sigilosa e sem julgamentos, em um ciclo inicial de até dez sessões. Ao final desse período, o paciente passa por uma nova avaliação, que define a continuidade do acompanhamento ou a necessidade de encaminhamento para atendimento presencial.
Quem preferir o atendimento presencial pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Quando necessário, a equipe de saúde realiza o encaminhamento para outros serviços da rede pública, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
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